Durante meses, Roberto terminava praticamente todas as reuniões da mesma maneira. A empresa precisava decidir se encerraria uma unidade que acumulava resultados ruins, mas sempre surgia uma razão aparentemente legítima para esperar um pouco mais. Primeiro seria prudente analisar o próximo trimestre, depois seria melhor aguardar a renovação de dois contratos importantes e, mais adiante, alguém sugeriu esperar o planejamento do ano seguinte. Nenhuma dessas justificativas era absurda, mas havia um detalhe incômodo: quanto mais informações chegavam, menos a decisão parecia avançar.
Enquanto Roberto esperava maior segurança, outras decisões começaram a depender daquela escolha. Investimentos foram suspensos, contratações ficaram indefinidas e profissionais passaram a especular sobre o futuro da operação. O custo da indecisão deixou de aparecer apenas nos números e começou a surgir no comportamento das pessoas, porque a ausência de uma resposta também estava produzindo consequências.
Esse tipo de situação revela uma armadilha frequente para quem lidera. Gostamos de acreditar que adiamos decisões porque ainda precisamos analisar melhor, embora algumas vezes estejamos apenas tentando reduzir o desconforto de escolher entre alternativas que possuem perdas, riscos ou consequências desagradáveis. Quanto maior a responsabilidade, maior pode ser a tentação de buscar uma informação adicional que finalmente transforme uma escolha difícil em uma escolha óbvia.
Daniel Kahneman e outros pesquisadores da tomada de decisão ajudaram a mostrar como nossa avaliação de escolhas pode ser influenciada pela maneira como percebemos riscos e perdas. Para quem lidera, a questão prática não é conhecer todos os vieses envolvidos, mas reconhecer que esperar também é uma escolha e que o adiamento não nos coloca fora das consequências da decisão.
Há uma passagem particularmente provocativa em Eclesiastes 11:4: “Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará.” A imagem construída pelo texto é poderosa porque não condena o planejamento ou a prudência; ela alerta para o risco de esperar condições tão favoráveis que a ação nunca acontece. Quem precisa ter certeza de que não haverá vento antes de semear provavelmente permanecerá com as sementes nas mãos.
Na liderança, essa espera pode assumir uma aparência sofisticada. Solicitamos outro relatório, marcamos mais uma reunião, pedimos uma nova projeção e ampliamos a quantidade de pessoas envolvidas na discussão. Em determinadas situações, isso representa responsabilidade e melhora a qualidade da escolha; em outras, apenas cria uma estrutura racional para evitar o momento em que alguém precisará dizer: diante do que sabemos hoje, este é o caminho que vamos seguir.
Autoliderança exige perceber essa diferença. Uma pergunta útil diante de uma decisão que continua sendo postergada é identificar exatamente qual informação ainda falta e estabelecer se ela realmente possui capacidade de alterar a escolha. Quando não conseguimos responder claramente, talvez o problema já não seja falta de informação, mas dificuldade de assumir as consequências.
Roberto finalmente percebeu isso quando alguém de sua equipe perguntou o que exatamente precisariam descobrir para decidir sobre a unidade. Ele não conseguiu responder. Os números já mostravam o problema, os cenários haviam sido construídos e os riscos eram conhecidos; o que faltava não era uma nova planilha, mas aceitar que qualquer caminho produziria algum tipo de perda.
Decidir não significa eliminar a incerteza, porque muitas escolhas importantes acontecem justamente quando não possuímos todas as respostas. Significa refletir sobre aquilo que sabemos, avaliar consequências, escolher um caminho e assumir a responsabilidade de acompanhar seus resultados.
Talvez exista hoje uma decisão esperando em sua mesa que não precise de outra reunião, outro relatório ou mais alguns dias de reflexão. Talvez ela precise apenas que você reconheça que as nuvens nunca desaparecerão completamente e que liderar também significa escolher quando ainda existe vento.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.