O que você tolera está ensinando sua equipe a fazer o quê?

Paula liderava uma equipe reconhecida pela qualidade das entregas, mas havia meses enfrentava um problema com um de seus profissionais mais experientes. Ele produzia bons resultados, conhecia profundamente os clientes e possuía grande domínio técnico, porém frequentemente interrompia colegas durante reuniões, respondia de maneira agressiva quando era contrariado e fazia comentários que deixavam profissionais mais jovens desconfortáveis.

Paula percebia o comportamento e não concordava com ele, mas sempre encontrava uma justificativa para não enfrentá-lo naquele momento. O profissional era importante para uma negociação, depois surgiu um projeto crítico e, em seguida, parecia melhor esperar o fechamento do trimestre. Como suas entregas continuavam boas, conversar sobre comportamento nunca parecia suficientemente urgente.

Até que uma profissional pediu desligamento.

Na conversa de saída, Paula descobriu que o problema era maior do que imaginava. Outras pessoas evitavam discordar daquele colega, algumas deixavam de apresentar ideias nas reuniões e havia uma percepção crescente de que resultados davam a determinados profissionais o direito de ultrapassar limites que não seriam aceitos dos demais.

Naquele momento, Paula percebeu que seu silêncio também havia participado da construção daquele ambiente.

Essa é uma dimensão desconfortável da liderança porque normalmente avaliamos nossas ações pelo que fazemos, embora as pessoas também interpretem aquilo que deixamos de fazer. Quando um comportamento inadequado acontece repetidamente diante de quem possui autoridade e nenhuma consequência aparece, a equipe começa naturalmente a construir uma referência sobre o que realmente é permitido.

Por isso, cultura não é determinada apenas pelos valores declarados por uma organização. Ela também nasce da distância entre aquilo que dizemos valorizar e aquilo que aceitamos quando somos pressionados pela realidade. Se afirmamos que respeito é inegociável, mas toleramos agressividade de quem entrega bons números, a equipe aprende rapidamente qual dos dois valores possui maior peso.

Há uma passagem em Provérbios 28:23 que apresenta uma perspectiva interessante sobre a responsabilidade de confrontar aquilo que precisa ser corrigido: “O que repreende ao homem achará depois mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua.” O princípio não sugere que líderes devam procurar erros ou conduzir relações pela repreensão, mas lembra que a honestidade necessária pode produzir mais valor no longo prazo do que a aprovação confortável do presente.

Autoliderança entra justamente nesse ponto, porque antes de questionar o comportamento da equipe talvez seja necessário compreender por que determinadas atitudes continuam sendo toleradas. Algumas vezes evitamos agir porque não queremos criar conflito, tememos perder um profissional importante ou simplesmente esperamos que o problema desapareça sozinho. A intenção pode ser preservar o ambiente, mas o efeito produzido pode ser exatamente o contrário.

Paula decidiu conversar com aquele profissional sem transformar a situação em um julgamento sobre sua personalidade. Apresentou comportamentos específicos, explicou seus impactos e deixou claro quais limites precisariam ser respeitados dali em diante. A conversa não foi confortável, mas finalmente tornou explícito aquilo que durante meses havia permanecido apenas na percepção das pessoas.

O episódio também mudou sua maneira de liderar. Paula percebeu que precisava observar não apenas os resultados que sua equipe produzia, mas os comportamentos utilizados para alcançá-los, porque desempenho e cultura não deveriam existir em lados opostos da mesma escolha.

Talvez exista hoje em sua equipe algum comportamento que você já percebeu, considera inadequado e continua esperando uma oportunidade melhor para enfrentar. Nesse caso, a pergunta talvez não seja apenas quanto tempo você ainda pretende tolerá-lo, mas o que as outras pessoas estão aprendendo enquanto observam você tolerá-lo.

Porque toda liderança ensina comportamentos, inclusive quando permanece em silêncio.

Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.

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