No início, Carlos sentia orgulho quando alguém de sua equipe aparecia na porta de sua sala pedindo ajuda. Conhecia profundamente a operação, tinha anos de experiência e normalmente conseguia encontrar uma solução em poucos minutos. Se surgisse uma dificuldade com um cliente, ele sabia como conduzir a conversa; se alguém tivesse dúvida sobre uma proposta, rapidamente indicava o melhor caminho; quando uma decisão parecia complexa, bastava perguntar a Carlos, porque provavelmente ele já havia enfrentado algo semelhante.
Com o crescimento da equipe, entretanto, aquilo que demonstrava sua competência começou a produzir um efeito inesperado. As interrupções aumentaram, pequenas decisões passaram a esperar por sua disponibilidade e sua agenda ficou progressivamente ocupada por assuntos que outras pessoas poderiam resolver. Carlos começou a reclamar que ninguém decidia sem consultá-lo, embora raramente percebesse que, durante anos, havia treinado sua equipe exatamente para agir dessa maneira.
Esse é um paradoxo frequente na liderança. Quanto mais competente alguém se torna para resolver problemas, maior pode ser a tentação de utilizar essa competência sempre que um problema aparece. No curto prazo, oferecer uma resposta pronta é rápido e eficiente; no longo prazo, porém, a repetição desse comportamento pode retirar das pessoas justamente as oportunidades necessárias para desenvolver julgamento, confiança e autonomia.
A reflexão proposta por Liz Wiseman sobre líderes multiplicadores ajuda a compreender essa dinâmica. Algumas lideranças ampliam a capacidade das pessoas ao redor porque utilizam sua experiência para provocar raciocínio, enquanto outras, mesmo bem-intencionadas, acabam concentrando as respostas. A diferença pode surgir em uma situação tão simples quanto alguém perguntar o que deve fazer e o líder, em vez de responder imediatamente, devolver perguntas que ajudem aquela pessoa a analisar alternativas, riscos e consequências.
Há uma passagem particularmente interessante em Êxodo 18:17-18, quando Jetro observa Moisés tentando atender pessoalmente às demandas do povo e o adverte: “Não é bom o que fazes. Sem dúvida, desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não o podes fazer.” A questão apresentada há milhares de anos permanece surpreendentemente contemporânea: quando tudo depende de uma única pessoa, o problema não está apenas na sobrecarga dessa pessoa, mas na fragilidade de todo o sistema construído ao seu redor.
Autoliderança, nesse contexto, exige uma pergunta desconfortável: será que minha equipe realmente não possui autonomia ou minha maneira de liderar continua impedindo que ela seja construída? Reconhecer essa possibilidade não significa delegar indiscriminadamente nem abandonar responsabilidades, porque existem decisões que precisam permanecer com quem possui maior experiência ou autoridade. Significa observar se estamos assumindo determinadas questões porque nossa presença é necessária ou simplesmente porque fazer pessoalmente ainda parece mais rápido e seguro.
Carlos começou a mudar quando percebeu que precisava deixar de medir sua contribuição pela quantidade de problemas que resolvia. Sempre que alguém chegava com uma dúvida, passou a perguntar o que a pessoa já havia analisado, quais alternativas enxergava e qual decisão tomaria caso ele não estivesse disponível. Algumas conversas ficaram inicialmente mais demoradas e determinadas escolhas precisaram ser corrigidas, mas algo começou a acontecer: as pessoas passaram a chegar menos vezes apenas com problemas e mais vezes trazendo possibilidades.
Talvez esse seja um dos sinais mais interessantes do amadurecimento de uma liderança. O objetivo deixa de ser tornar-se a pessoa indispensável para todas as respostas e passa a ser construir pessoas capazes de pensar quando você não estiver presente. Afinal, se tudo continua dependendo de você, sua competência pode ter construído uma boa carreira, mas ainda não construiu necessariamente uma liderança capaz de se multiplicar.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.