Quando Renata assumiu a direção de uma área com quase quarenta profissionais, encontrou processos desorganizados, responsabilidades pouco claras e resultados abaixo do esperado. Nos primeiros meses, sua presença próxima fez diferença, porque passou a acompanhar indicadores, participar das reuniões mais importantes e revisar pessoalmente algumas entregas. Os resultados melhoraram e a equipe reconheceu rapidamente sua capacidade de colocar ordem em um ambiente que havia perdido direção.
Dois anos depois, porém, Renata continuava trabalhando praticamente da mesma maneira. Queria ser copiada nos principais e-mails, participava de reuniões que seus gestores poderiam conduzir, solicitava atualizações constantes e revisava apresentações antes que fossem enviadas. Quando alguém tomava uma decisão sem consultá-la, sua primeira preocupação era entender por que não havia sido envolvida.
O comportamento que inicialmente ajudou a organizar a área começou, silenciosamente, a limitar seu desenvolvimento.
Essa transformação é comum porque controle costuma nascer de uma intenção legítima. Quem responde pelos resultados deseja reduzir riscos, antecipar problemas e garantir qualidade, principalmente quando já viveu situações nas quais uma decisão equivocada produziu consequências importantes. O problema aparece quando a necessidade de segurança cresce a ponto de retirar das outras pessoas o espaço necessário para exercer responsabilidade.
Existe uma diferença importante entre estabelecer critérios e determinar cada caminho. O líder pode definir claramente o resultado esperado, os limites que não devem ser ultrapassados e os momentos em que precisa ser envolvido sem decidir como cada profissional realizará o trabalho. Quando essa fronteira desaparece, delegamos a tarefa, mas continuamos proprietários de todas as decisões relacionadas a ela.
Há uma passagem em Provérbios 3:5 que apresenta uma provocação interessante: “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.” Em seu contexto espiritual, o texto trata da confiança em Deus, mas também carrega uma reflexão sobre os limites da nossa própria compreensão. Para quem lidera, essa sabedoria pode provocar uma pergunta incômoda: em que momento nossa experiência deixa de orientar e começa a alimentar a crença de que somente a nossa maneira oferece segurança?
Autoliderança exige reconhecer que controle também pode ser uma resposta ao medo. Podemos temer que alguém erre, que uma entrega não corresponda ao nosso padrão ou que uma decisão produza consequências pelas quais continuaremos responsáveis. Diante desse desconforto, assumir novamente o controle parece uma solução eficiente, embora cada intervenção também possa comunicar à equipe que decidir é perigoso e que a alternativa mais segura continua sendo esperar pela liderança.
Renata começou a perceber isso quando um de seus gestores, diante de uma decisão relativamente simples, respondeu que preferia esperar por ela. Em vez de interpretar aquela postura apenas como falta de iniciativa, perguntou por que ele não se sentia confortável para decidir. A resposta foi direta: “Porque normalmente, quando decidimos, você muda alguma coisa depois.”
Naquele momento, ela compreendeu que parte da dependência que tanto a incomodava havia sido construída pelo próprio comportamento. A mudança não aconteceu quando simplesmente anunciou que confiava mais na equipe, mas quando começou a definir com maior clareza quais decisões deveriam chegar até ela e, principalmente, deixou de interferir naquelas que já havia delegado apenas porque teria escolhido outro caminho.
Com o tempo, algumas decisões foram diferentes das que Renata teria tomado e determinados erros precisaram ser corrigidos. Em contrapartida, seus gestores começaram a assumir responsabilidades maiores e ela recuperou espaço para cuidar de assuntos que somente alguém em sua posição poderia conduzir.
Talvez o verdadeiro teste da confiança não aconteça quando sua equipe faz exatamente aquilo que você faria. Ele acontece quando alguém escolhe um caminho diferente, dentro dos limites combinados, e você consegue permitir que essa pessoa seja responsável pela própria decisão.
Porque liderar não significa perder o controle, mas compreender o que realmente precisa continuar sob seu controle e o que precisa sair dele para que outras pessoas possam crescer.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.