Durante algumas semanas, Patrícia percebeu que Eduardo, um dos profissionais mais experientes de sua equipe, havia mudado. Ele continuava chegando no horário e participando das reuniões, mas suas entregas estavam mais lentas e a iniciativa que sempre o caracterizou parecia ter desaparecido. Para Patrícia, a explicação parecia evidente: depois de alguns anos na empresa, Eduardo havia entrado em uma zona de conforto.
Ela decidiu conversar com ele e reforçou a importância de recuperar o protagonismo, assumir mais responsabilidades e demonstrar novamente a energia que havia marcado seus primeiros anos. Eduardo ouviu atentamente, concordou com quase tudo e saiu da conversa disposto a melhorar. Duas semanas depois, porém, pouca coisa havia mudado.
Foi somente durante uma reunião sobre outro assunto que Patrícia percebeu que talvez estivesse tentando resolver o problema errado. Ao pedir que Eduardo assumisse uma nova atividade, ele perguntou quais decisões poderia tomar sozinho, porque nos últimos meses algumas responsabilidades haviam mudado e ele já não sabia exatamente até onde ia sua autonomia.
A pergunta abriu uma conversa que deveria ter acontecido muito antes.
Com o crescimento da área, Patrícia havia criado novas funções, distribuído responsabilidades e contratado dois coordenadores, mas nunca reorganizou claramente os limites entre os papéis. Eduardo não estava necessariamente desmotivado; havia aprendido a ser cauteloso porque algumas decisões que anteriormente eram suas passaram a ser questionadas, enquanto outras continuavam chegando até ele sem que soubesse se ainda possuía autoridade para resolvê-las.
Situações assim mostram como podemos interpretar rapidamente o comportamento das pessoas sem investigar suficientemente o contexto no qual ele acontece. Quando alguém não entrega o esperado, classificamos o problema como falta de comprometimento, iniciativa ou senso de dono, embora desempenho também dependa de compreender prioridades, responsabilidades e critérios para decidir.
Isso não significa retirar das pessoas a responsabilidade pelos próprios resultados. Significa reconhecer que cobrar alguém por aquilo que nunca foi suficientemente esclarecido pode gerar pressão sem produzir direção.
Há uma passagem em Habacuque 2:2 que apresenta uma imagem interessante sobre a importância da clareza: “Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que possa ler até quem passa correndo.” Em seu contexto original, a passagem possui um significado específico relacionado à visão recebida pelo profeta, mas sua imagem oferece uma provocação útil para quem lidera: aquilo que precisa orientar uma ação deve ser compreensível o suficiente para não depender permanentemente de interpretação.
Na liderança, muitas vezes acreditamos que fomos claros simplesmente porque falamos. Entretanto, comunicação não deveria ser medida apenas pelo que foi dito, mas pelo entendimento que conseguiu produzir. Uma prioridade pode parecer evidente para quem participou de sua definição e continuar completamente ambígua para quem precisa transformá-la em comportamento cotidiano.
Autoliderança também aparece nessa situação porque exige resistir à tentação de atribuir rapidamente o problema ao outro. Antes de concluir que alguém precisa de mais cobrança, talvez seja necessário verificar se nós mesmos estabelecemos expectativas suficientemente claras, oferecemos os recursos necessários e definimos até onde aquela pessoa pode decidir.
Patrícia reorganizou as responsabilidades da equipe e conversou individualmente sobre os limites de autonomia de cada função. Eduardo não recebeu um novo discurso motivacional; recebeu clareza sobre aquilo que precisava entregar e sobre as decisões que poderia voltar a tomar sem pedir autorização.
Nas semanas seguintes, sua iniciativa reapareceu gradualmente.
Talvez, portanto, quando alguém parecer menos comprometido, a primeira pergunta não deva ser como motivá-lo novamente. Antes disso, pode valer investigar se aquela pessoa consegue responder com segurança a três questões simples: o que esperam de mim, por que isso importa e o que posso decidir sozinho?
Porque, algumas vezes, aquilo que parece falta de motivação é apenas alguém tentando encontrar direção em um ambiente que deixou de ser claro.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro *Lidere sua vida com menos caos e mais resultados*, entrevistador do programa **Empreende ABC**, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. **LinkedIn: @fermoraisreis.**


