Você está ouvindo para compreender ou apenas esperando sua vez de responder?

Durante uma reunião, Marcelo percebeu que uma de suas coordenadoras insistia em explicar por que determinado projeto estava atrasado. Ele conhecia os números, havia acompanhado as últimas entregas e acreditava compreender perfeitamente o problema. Enquanto ela falava, Marcelo organizava mentalmente aquilo que diria quando chegasse sua vez e, em alguns momentos, chegou a interrompê-la para explicar quais decisões deveriam ter sido tomadas.

A conversa terminou com um plano de recuperação e Marcelo saiu convencido de que havia resolvido a situação. Dois dias depois, descobriu que o atraso era apenas uma consequência de um problema muito maior. Dois profissionais importantes estavam prestes a deixar a equipe e a coordenadora havia tentado introduzir o assunto durante aquela reunião, mas desistiu depois das primeiras interrupções.

Marcelo havia escutado todas as palavras necessárias para responder ao problema que imaginava existir, mas não havia criado espaço suficiente para descobrir o problema que realmente existia.

Essa situação ajuda a compreender uma diferença importante entre escutar e esperar a oportunidade de falar. Quando ocupamos posições de liderança, acumulamos experiência e somos frequentemente procurados justamente porque conseguimos interpretar situações e apresentar respostas rapidamente. Essa capacidade é valiosa, mas também pode criar um hábito perigoso: começamos a concluir antes que a outra pessoa termine de construir seu raciocínio.

O cérebro naturalmente utiliza experiências anteriores para interpretar aquilo que acontece, permitindo reconhecer padrões e responder com maior velocidade. O problema surge quando essa eficiência transforma uma hipótese em certeza prematuramente. A partir daí, deixamos de buscar informações novas e começamos a selecionar aquilo que confirma a interpretação que já construímos.

Há uma passagem em Provérbios 18:13 que apresenta essa questão de maneira surpreendentemente direta: “Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha.” A provocação continua atual porque não trata apenas da educação de esperar alguém terminar uma frase. Ela nos convida a reconhecer o risco de construir respostas antes de compreender suficientemente aquilo que está sendo apresentado.

Na liderança, ouvir bem também exige lidar com uma assimetria que muitas vezes passa despercebida. Uma pergunta feita pelo gestor possui peso diferente da mesma pergunta feita por um colega, assim como uma interrupção pode ser interpretada não apenas como pressa, mas como indicação de que determinado assunto não merece continuar. Com o tempo, as pessoas aprendem quais temas podem trazer, quanto podem discordar e até que ponto vale a pena apresentar uma perspectiva diferente.

Autoliderança, nesse contexto, significa observar a própria necessidade de responder. Algumas vezes interrompemos porque temos experiência, outras porque desejamos acelerar a reunião e, em determinadas situações, porque aquilo que estamos ouvindo começa a desafiar uma decisão, crença ou percepção que preferiríamos preservar. Escutar verdadeiramente pode ser desconfortável justamente porque existe a possibilidade de descobrirmos que nossa interpretação estava incompleta.

Depois daquela experiência, Marcelo adotou uma mudança simples. Quando alguém apresentava um problema importante, procurava não oferecer imediatamente uma solução. Primeiro fazia perguntas para compreender o contexto, confirmava aquilo que havia entendido e somente depois apresentava sua perspectiva. As reuniões não ficaram necessariamente mais longas, mas informações que antes apareciam tarde começaram a surgir mais cedo.

Talvez uma boa maneira de avaliar sua própria escuta seja observar o que acontece enquanto alguém fala com você. Sua atenção está concentrada em compreender aquilo que ainda não sabe ou sua mente já está organizando aquilo que pretende responder?

Porque ouvir não significa apenas permanecer calado enquanto outra pessoa fala. Para quem lidera, ouvir significa aceitar por alguns minutos a possibilidade de que a informação capaz de mudar sua decisão ainda não tenha sido dita.

Fernando Morais dos Reis é autor do livro *Lidere sua vida com menos caos e mais resultados*, entrevistador do programa **Empreende ABC**, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. **LinkedIn: @fermoraisreis.**

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