Durante uma reunião mensal, um analista apresentou um erro que havia provocado um atraso importante na entrega para um cliente. Antes que terminasse de explicar o ocorrido, Sérgio, diretor da área, demonstrou irritação, questionou como alguém poderia ter tomado aquela decisão e passou vários minutos detalhando as consequências do problema diante de toda a equipe.
A cobrança tinha fundamento, porque o erro realmente havia causado prejuízo e precisava ser tratado. Nas semanas seguintes, porém, Sérgio percebeu uma mudança que inicialmente interpretou como maior responsabilidade. As pessoas começaram a consultá-lo com mais frequência, decisões relativamente simples passaram a chegar à sua mesa e ninguém parecia disposto a assumir riscos sem antes receber uma confirmação.
O número de erros aparentes diminuiu, mas a velocidade da equipe também.
Algum tempo depois, Sérgio descobriu que um problema operacional havia sido percebido vários dias antes de chegar ao seu conhecimento. Quando perguntou por que ninguém o alertara, ouviu uma resposta desconfortável: as pessoas estavam tentando encontrar uma solução antes de contar, porque ninguém queria aparecer na reunião seguinte como responsável por outro problema.
Naquele momento, Sérgio percebeu que havia ensinado algo que nunca pretendeu ensinar. Ele queria responsabilidade, mas sua reação havia mostrado que trazer um erro poderia representar exposição e constrangimento. A equipe não deixou de cometer erros; começou a administrar cuidadosamente quais problemas seriam apresentados ao líder.
Essa diferença é importante porque responsabilidade e medo podem produzir comportamentos aparentemente semelhantes no curto prazo. Pessoas responsáveis verificam melhor suas decisões e procuram reduzir riscos, enquanto pessoas com medo também podem agir com extrema cautela. O problema aparece quando a cautela se transforma em silêncio, porque questões que poderiam ser corrigidas rapidamente permanecem escondidas até se tornarem maiores.
A segurança psicológica estudada por Amy Edmondson ajuda a compreender esse fenômeno. Um ambiente seguro não significa ausência de cobrança, padrões baixos ou liberdade para errar repetidamente sem consequências. Significa criar condições para que as pessoas consigam admitir dúvidas, apontar problemas e reconhecer erros sem acreditar que sua dignidade ou posição estarão automaticamente ameaçadas. A responsabilidade continua existindo, mas o erro pode ser analisado antes de ser transformado em julgamento sobre quem o cometeu.
Há uma passagem em Provérbios 28:13 que apresenta uma reflexão poderosa sobre esconder e reconhecer falhas: “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” Independentemente de seu contexto espiritual, a imagem oferece uma provocação importante para a liderança: aquilo que permanece escondido dificilmente pode ser corrigido.
Autoliderança, nesse caso, começa antes de perguntar por que alguém escondeu um problema. Exige observar como reagimos quando recebemos uma notícia ruim, quando alguém discorda de nós ou quando uma tentativa produz um resultado diferente do esperado. Se nossa reação inicial é procurar culpados, as pessoas rapidamente aprendem que proteger a própria imagem pode ser mais seguro do que revelar a realidade.
Sérgio não deixou de cobrar erros depois daquela experiência, mas mudou a ordem da conversa. Primeiro procurava compreender o que havia acontecido, quais decisões levaram àquele resultado e como impedir sua repetição; depois tratava a responsabilidade de cada pessoa. Aos poucos, os problemas começaram a chegar mais cedo e as discussões ficaram mais transparentes.
Talvez, portanto, uma pergunta importante não seja apenas se sua equipe assume responsabilidade pelos erros, mas o que acontece quando alguém entra em sua sala e diz: “eu errei”.
A resposta pode revelar muito mais sobre sua liderança do que qualquer discurso sobre confiança, autonomia ou inovação.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro *Lidere sua vida com menos caos e mais resultados*, entrevistador do programa **Empreende ABC**, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. **LinkedIn: @fermoraisreis.**


