Marcos repetia com frequência que sua equipe precisava demonstrar mais iniciativa. Durante as reuniões, incentivava as pessoas a assumirem responsabilidades, resolverem problemas sem depender dele e chegarem com propostas em vez de apenas apresentarem dificuldades. A mensagem parecia clara, até que uma de suas coordenadoras decidiu negociar diretamente uma solução para um problema importante com um cliente.
A decisão resolveu a situação, preservou o relacionamento e ficou dentro dos limites comerciais disponíveis, mas não seguiu exatamente o caminho que Marcos teria escolhido. Quando soube, chamou a coordenadora para conversar e passou vários minutos explicando como ela deveria ter conduzido o assunto. Não houve uma repreensão explícita, porém a mensagem recebida foi suficientemente clara: você pode decidir, desde que decida como eu decidiria.
Algumas semanas depois, diante de outro problema, a mesma coordenadora procurou Marcos antes de fazer qualquer movimento. Ele se surpreendeu e perguntou por que ela não havia resolvido diretamente, já que possuía autonomia para isso. O que Marcos não percebeu naquele momento é que a resposta estava menos no comportamento dela e mais na experiência que ele próprio havia criado.
Esse paradoxo aparece com frequência na liderança. Queremos iniciativa porque sabemos que uma equipe dependente limita resultados e sobrecarrega quem lidera, mas autonomia traz uma consequência que nem sempre estamos preparados para aceitar: outras pessoas poderão chegar a soluções diferentes das nossas. Se toda diferença for interpretada como erro, rapidamente ensinaremos que a alternativa mais segura é perguntar antes de agir.
Existe ainda outro elemento importante nessa dinâmica. Pessoas não aprendem autonomia apenas quando recebem permissão formal para decidir, mas quando percebem, na prática, que podem exercer julgamento dentro de limites conhecidos. Isso significa que o papel do líder não é desaparecer das decisões, mas deixar claros os critérios, riscos e fronteiras dentro dos quais outras pessoas podem escolher caminhos próprios e responder pelos resultados.
Uma passagem de Provérbios 15:22 oferece uma perspectiva interessante sobre essa abertura: “Onde não há conselho, frustram-se os projetos; mas com a multidão de conselheiros se estabelecem.” O princípio sugere que decisões podem se fortalecer quando incorporam perspectivas diferentes. Ouvir outras pessoas, entretanto, perde grande parte de seu valor quando buscamos apenas opiniões que confirmem aquilo que já decidimos.
Autoliderança exige reconhecer essa contradição dentro de nós. Podemos defender racionalmente a autonomia e, ao mesmo tempo, sentir desconforto quando alguém conduz uma situação de maneira diferente. Nesses momentos, antes de corrigir a pessoa, talvez seja necessário perguntar se houve realmente um erro ou apenas uma escolha que não corresponde à nossa preferência.
Marcos começou a mudar quando passou a discutir resultados antes de métodos. Se uma decisão respeitasse princípios, limites e objetivos previamente combinados, procurava compreender o raciocínio utilizado antes de apresentar sua própria alternativa. Algumas vezes continuava sendo necessário corrigir uma escolha, mas em outras descobria caminhos que não havia considerado.
Com o tempo, as perguntas que chegavam até ele também mudaram. A equipe deixou de procurar autorização para cada movimento e passou a compartilhar decisões mais estruturadas, inclusive discordando dele em algumas situações. Marcos percebeu que desenvolver iniciativa exigia algo mais difícil do que pedir que as pessoas assumissem responsabilidades: exigia aceitar que autonomia verdadeira produz diferenças.
Talvez, portanto, antes de reclamar que sua equipe não decide, seja necessário observar o que acontece quando alguém decide sem você. Se sua primeira reação é mostrar como teria feito, talvez as pessoas já tenham aprendido que a autonomia termina exatamente onde começa uma opinião diferente da sua.
Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.