Sua experiência está ajudando você a decidir ou impedindo você de aprender?

Helena tinha 58 anos e uma trajetória profissional que poucas pessoas de sua equipe poderiam questionar. Havia atravessado crises econômicas, mudanças tecnológicas, fusões e diferentes ciclos de crescimento da empresa. Quando os profissionais mais jovens chegavam com novas ideias, ela costumava ouvi-los com atenção, mas frequentemente encerrava a discussão lembrando que já havia tentado algo semelhante anos antes e sabia como aquela história terminaria.

Durante muito tempo, sua experiência foi uma vantagem competitiva. Helena reconhecia padrões rapidamente, percebia riscos que outras pessoas ainda não enxergavam e conseguia tomar decisões com uma segurança construída por décadas de prática. O problema surgiu quando um novo concorrente começou a conquistar clientes utilizando um modelo comercial bastante diferente daquele que sua empresa sempre havia adotado.

A equipe sugeriu mudanças, apresentou dados e propôs um pequeno projeto experimental, mas Helena permaneceu resistente porque conhecia profundamente aquele mercado. Meses depois, quando alguns dos principais clientes começaram a demonstrar interesse pela nova abordagem, percebeu que talvez não estivesse analisando apenas os riscos da proposta. Estava comparando um problema novo com respostas construídas para um mundo que já havia mudado.

Esse é um dos paradoxos da experiência. Quanto mais aprendemos, maior se torna nossa capacidade de utilizar situações anteriores para interpretar aquilo que acontece no presente, o que normalmente melhora nossas decisões. Entretanto, essa mesma capacidade pode criar atalhos que nos fazem enquadrar rapidamente uma situação nova dentro de modelos conhecidos, reduzindo nossa disposição para investigar aquilo que realmente mudou.

Por isso, inteligência na liderança não deveria ser medida apenas pela quantidade de respostas acumuladas, mas também pela qualidade das perguntas que continuamos dispostos a fazer. Um profissional experiente não precisa abandonar aquilo que aprendeu para permanecer aberto ao novo; precisa apenas reconhecer que conhecimento e curiosidade não são opostos. Na verdade, quanto maior a responsabilidade, mais importante pode se tornar a capacidade de sustentar os dois ao mesmo tempo.

Há uma passagem em Provérbios 18:15 que traduz essa disposição de maneira particularmente interessante: “O coração do entendido adquire conhecimento, e o ouvido dos sábios busca conhecimento.” O texto não descreve o sábio como alguém que finalmente alcançou todas as respostas, mas como alguém que continua buscando conhecimento. Essa diferença é importante porque transforma sabedoria de um destino em uma postura.

Na liderança, essa postura pode aparecer quando alguém consegue ouvir uma proposta sem compará-la imediatamente com aquilo que já viveu, conversar com profissionais mais jovens sem utilizar a própria experiência para encerrar o debate e observar uma mudança no mercado sem assumir que as regras que funcionaram durante vinte anos continuarão produzindo os mesmos resultados nos próximos vinte.

Helena decidiu autorizar o projeto experimental proposto pela equipe, não porque tivesse abandonado suas dúvidas, mas porque percebeu que poderia testá-las. Parte de suas preocupações mostrou-se correta, enquanto outras desapareceram quando os primeiros dados surgiram. Mais importante do que o resultado daquele projeto foi a mudança na maneira como passou a utilizar sua experiência: em vez de empregá-la para determinar antecipadamente o que aconteceria, começou a usá-la para formular perguntas melhores sobre aquilo que ainda precisava descobrir.

Talvez esse seja um dos desafios mais sofisticados da autoliderança, porque reconhecer que ainda temos muito a aprender depois de décadas de experiência exige mais segurança do que fingir possuir todas as respostas. O passado continua sendo uma fonte valiosa de conhecimento, desde que não receba autoridade absoluta sobre o futuro.

Por isso, diante da próxima ideia que parecer ingênua, impossível ou simplesmente diferente da maneira como você sempre fez, talvez valha resistir alguns minutos à vontade de explicar por que ela não funcionará. Antes disso, faça uma pergunta e escute verdadeiramente a resposta, porque experiência pode ser uma extraordinária professora, mas se você permitir que ela tenha sempre a última palavra, ela também pode impedir que algo novo seja aprendido.

Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.

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