Durante anos, André conduziu sua empresa de uma maneira bastante simples. Conhecia pessoalmente os principais clientes, participava das negociações importantes e acompanhava de perto praticamente tudo o que acontecia na operação. A fórmula havia funcionado, a empresa cresceu e aquela maneira de trabalhar tornou-se parte de sua identidade como empresário. Quando alguém sugeria mudanças, ele costumava responder com tranquilidade que conhecia seu negócio e sabia exatamente como as coisas funcionavam.
O problema apareceu quando a empresa continuou crescendo, mas seus resultados deixaram de acompanhar o mesmo ritmo. As decisões ficaram mais lentas, a equipe passou a depender excessivamente dele e oportunidades começaram a ser perdidas porque quase tudo precisava chegar à sua mesa. André percebeu que alguma coisa precisava mudar e decidiu contratar pessoas mais experientes, implantar novos indicadores e organizar melhor os processos, embora continuasse interferindo nas decisões, solicitando que todos o consultassem e retomando atividades que havia acabado de delegar.
Ele queria um resultado diferente sem abandonar o comportamento que havia ajudado a construir o resultado atual.
Essa contradição aparece com frequência na liderança porque mudar uma estratégia costuma ser mais confortável do que mudar a própria maneira de agir. Podemos contratar uma consultoria, implantar uma ferramenta, redesenhar processos e estabelecer novas metas, mas nenhuma dessas iniciativas produz todo o seu potencial quando o comportamento de quem lidera continua reforçando a lógica anterior.
A psicologia ajuda a compreender parte dessa resistência. Nossas experiências anteriores formam referências importantes para interpretar situações novas e tomar decisões, algo extremamente útil porque não precisamos reaprender tudo diante de cada problema. A dificuldade aparece quando experiência deixa de funcionar como referência e passa a funcionar como certeza. Aquilo que deu certo durante muitos anos pode criar a convicção de que continuará funcionando mesmo quando o contexto, o tamanho da organização e as pessoas já mudaram.
Há uma imagem poderosa em Eclesiastes 3:1: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.” O princípio pode ser aplicado à liderança sem transformar a passagem em uma fórmula religiosa: práticas que foram adequadas em determinada fase podem deixar de ser suficientes em outra. Reconhecer essa mudança não diminui o valor daquilo que funcionou no passado; apenas impede que o passado se transforme em uma prisão para as decisões do presente.
Para André, o ponto de mudança aconteceu quando um dos gestores perguntou por que havia recebido autonomia para negociar se todas as condições importantes continuavam precisando de aprovação. A pergunta revelou uma incoerência que nenhuma planilha mostrava. André dizia desejar uma empresa menos dependente dele, mas seu comportamento continuava ensinando que decisões relevantes somente eram seguras depois que passavam por suas mãos.
Autoliderança começa justamente quando conseguimos observar essa distância entre aquilo que dizemos querer e aquilo que fazemos repetidamente. Se desejamos uma equipe mais autônoma, precisamos analisar quanto espaço realmente oferecemos para que as pessoas decidam; se queremos inovação, precisamos perceber como reagimos quando alguém questiona nossas ideias; se buscamos crescimento, talvez seja necessário abandonar práticas que foram fundamentais quando a empresa era menor, mas que agora limitam sua evolução.
Isso não significa mudar apenas porque algo é novo. Experiência continua sendo um patrimônio importante e determinadas práticas permanecem válidas por décadas. A questão é desenvolver a capacidade de perguntar, com alguma frequência, se fazemos determinada coisa porque ela ainda produz o melhor resultado ou simplesmente porque foi assim que aprendemos a fazer.
André não precisava negar tudo aquilo que havia construído para liderar uma nova fase da empresa. Precisava apenas compreender que o comportamento que o trouxe até determinado ponto não necessariamente seria o mesmo que o levaria adiante.
Talvez essa seja uma pergunta incômoda, mas necessária para qualquer pessoa que deseja resultados diferentes: o que você continua fazendo hoje não porque ainda funciona, mas porque mudar exigiria reconhecer que chegou a hora de aprender outra maneira?
Fernando Morais dos Reis é autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM, e mentor para quem busca assumir o controle dos próprios resultados. Linkedin: @fermoraisreis.