As empresas que aprenderem a construir ecossistemas terão uma vantagem difícil de copiar

Talvez a próxima grande solução para sua empresa não esteja na sua empresa.

Durante décadas, uma das maneiras de construir vantagem competitiva foi concentrar conhecimento, tecnologia e competências dentro da própria organização. Quanto mais difícil fosse reproduzir aquilo que acontecia entre os seus muros, maior seria a proteção do negócio. Essa lógica continua fazendo sentido em determinadas situações, mas está deixando de ser suficiente diante da velocidade com que conhecimento e tecnologia se desenvolvem.

Um movimento recente no Grande ABC ajuda a visualizar essa mudança. Em 2 de outubro, o Parque Tecnológico de Santo André divulgou três desafios de inovação aberta desenvolvidos em parceria com a General Motors. As chamadas procuram startups, empresas de tecnologia, universidades e instituições de ciência e tecnologia capazes de colaborar em problemas reais da indústria automotiva, envolvendo inteligência artificial, visão computacional, intralogística, IoT, telemetria e robótica avançada.

O aspecto mais interessante talvez não esteja nas tecnologias envolvidas, mas no modelo utilizado para encontrá-las. Em vez de pressupor que todas as respostas precisam nascer dentro da organização, a empresa apresenta desafios e se conecta a competências existentes fora dela. Conhecimento acadêmico, capacidade empreendedora, experiência industrial e desenvolvimento tecnológico passam a trabalhar sobre problemas concretos em um mesmo ambiente. A própria iniciativa prevê que soluções possam ser desenvolvidas, testadas e validadas em contexto industrial real.

É uma mudança importante na forma de pensar inovação, mas também oferece uma reflexão para empresas que estão muito distantes de possuir um departamento de pesquisa e desenvolvimento. Uma PME dificilmente conseguirá manter internamente todas as competências de que precisará nos próximos anos. Inteligência artificial, tecnologia, marketing, novos modelos comerciais, gestão, logística, finanças e desenvolvimento de pessoas evoluem rapidamente demais para que todo conhecimento relevante esteja permanentemente dentro da estrutura.

A alternativa não é contratar indefinidamente. É aprender a acessar competências. Nesse contexto, networking deixa de ser apenas relacionamento e começa a funcionar como infraestrutura estratégica do negócio. Clientes podem trazer informações sobre mudanças de comportamento. Fornecedores podem antecipar tecnologias. Universidades podem aproximar conhecimento e pesquisa. Startups podem apresentar soluções que a empresa levaria anos para desenvolver. Especialistas podem oferecer perspectivas que não existem internamente. Outros empresários podem abrir mercados, compartilhar experiências e criar oportunidades de colaboração.

Os ecossistemas de inovação mais estruturados ajudam a demonstrar a dimensão dessa lógica. O Porto Digital, no Recife, reúne atualmente 541 empresas e mais de 24 mil trabalhadores, enquanto mantém conexões entre empresas, formação profissional, universidades, pesquisa aplicada, startups e poder público. O modelo também influencia iniciativas em outros lugares, como o Hub Goiás, que é operado pelo Porto Digital e articula coworking, eventos, comunidades, aceleração e instituições próximas.

Isso não significa que toda empresa precise participar formalmente de um parque tecnológico. O princípio é mais amplo: empresas podem ampliar sua capacidade quando deixam de observar fornecedores, clientes, universidades, startups, associações e outros empresários apenas como agentes externos e começam a identificar quais conexões podem complementar aquilo que sabem fazer.

Para o empresário, entretanto, existe uma mudança de postura envolvida. Construir um ecossistema exige relacionamento antes da necessidade, abertura para conhecimentos produzidos fora da organização e capacidade de reconhecer que determinadas respostas podem vir de pessoas que não fazem parte da folha de pagamento.

Também exige reciprocidade. Ecossistemas consistentes não são construídos apenas procurando quem pode resolver nossos problemas. Eles se fortalecem quando cada participante consegue contribuir com conhecimento, acesso, experiência, mercado ou oportunidades para os demais.

Talvez essa seja uma das transformações mais interessantes para as empresas do Grande ABC. Uma região com indústria, universidades, empresas de tecnologia, parques de inovação, prestadores especializados e milhares de empresários possui muitos dos elementos necessários para gerar novas combinações de conhecimento e negócios. O desafio está em fazer essas competências se encontrarem.

No futuro, portanto, vantagem competitiva talvez não seja apenas uma questão de possuir os melhores recursos internamente. Será também consequência da capacidade de acessar rapidamente pessoas, conhecimentos e organizações capazes de complementar aquilo que a empresa já possui.

Porque algumas vantagens podem ser compradas, tecnologias podem ser copiadas e produtos podem ser reproduzidos. Uma rede de confiança construída ao longo do tempo, capaz de transformar conexões em conhecimento, inovação e oportunidades, é muito mais difícil de copiar.

A pergunta que fica para quem lidera uma empresa é: quando surgir o próximo desafio que sua equipe não consegue resolver sozinha, você já saberá quem colocar ao redor da mesa?

Fernando Morais dos Reis, Conselheiro de Empresários, Especialista em gestão, decisões e execução para construir empresas mais fortes e menos dependentes do dono. É autor do livro Lidere sua vida com menos caos e mais resultados, entrevistador do programa Empreende ABC, às segundas-feiras, às 20h, na Rádio ABC 81,9 FM. LinkedIn: @fermoraisreis. Menos caos. Mais resultados.

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